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sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Libertas quae sera tamen

Como conceber a criatividade humana, a diversidade, ou pensar a Ética num mundo determinista, fundamentalista, estreito? Impossível.

A transformação que se observa no ideal de Democracia, herdado dos gregos da era clássica, deve-se ao incremento da ideologia determinista existente e subjacente nos sistemas fundamentalistas, seja religioso ou político. Exatamente por isso, torna-se difícil a convivência normal e pacífica com a diversidade, com a pluralidade. Impõe-se de forma global o sistema único de ser, radicalizando e reduzindo ao mesmo tempo, toda manifestação do pensamento e do sentimento humanos.

Da estética mais elaborada ao simples cotidiano, nota-se um reducionismo avassalador. Até a moda transforma-se numa espécie de ditadura dentro da sociedade que só permite a diversidade se ela for da hierarquia estratificada. Hoje, se percebe mais do que em outros tempos, o que estamos tentando demonstrar. O controle não está tão evidente e a censura se mascara e sobrevive nos meandros e nas frestas dos interstícios sociais. Da expressão artística à manifestação política, ninguém pode pensar ou fazer de forma contrária ao que está estabelecido de cima para baixo, pelo sistema de controle da sociedade, do tipo: ‘se você não está a meu favor, está contra mim’, ‘se você não aprova o meu combate ao terrorismo, a minha ofensiva bélica, é porque não só está contra mim, mas está mancomunado com eles’ e assim por diante.

Mas o senso comum é capaz de afirmar que nunca houve tanta diversidade e liberdade, só pelo fato de se produzir industrialmente toda a pseudo-cultura que hoje se consome. Entretanto, referimo-nos à expressão cultural mais autêntica, para falar apenas de flores: a cultura popular e a cultura chamada erudita. Tanto uma como a outra estão ameaçadas de extinção, porque apresentam maior diversidade, além de ter como base a verdadeira criatividade, no sentido mais pleno do termo. A cultura que é produzida e divulgada hoje é a cultura de massa. A que usa elementos de uma e de outra cultura, isto quando usa, e transforma tudo em qualquer coisa que não se reconhece nem mesmo a origem, que dirá estilo pessoal ou de época. Como um pastiche, um besteirol, uma chanchada. A cultura popular, ao contrário, fala de uma região, de um grupo, de um povo com suas tradições, raízes, costumes e hábitos. A cultura erudita bebe na cultura popular e acrescenta o pensar a respeito desse fazer, sua visão da estética, da poética, aprofunda os meios da linguagem específica de que se utiliza e transforma, como pegar a farinha e ir além do pão, apresentando O Pão!

A cultura de massa, ao contrário, tem só a forma e o pão é feito a partir de uma mistura que ninguém sabe ao certo quem criou, nem o que tem dentro. É feita para unificar os gostos, os sabores, os sentimentos, as emoções até mesmo os pensamentos. Bem, a cultura de massa deixa transparecer somente a intenção, não a artística, mas a mercantilista dos donos dos meios de (re)produção, distribuição e comercialização. Com a cultura de massa, a criatividade está sob controle e não ameaça o sistema com sua instabilidade natural, que provém dos processos de criação.

Assim como a Estética é profundamente abalada, o imaginário das pessoas, do povo em geral, é mais que abalado, é controlado, modificado, induzido, substituído, descaradamente manipulado pelos meios de comunicação de massa. A ética também sofre o mesmo processo: é substituída por um conjunto de regras que se impõem de cima para baixo, sejam elas moralistas, comerciais, de trabalho, empresariais ou outras. Logo, a Democracia, este ideal não só de um sistema de governo, mas de um modo de vida em sociedade, vem sofrendo este abalo e vem se contaminando com o mal do determinismo fundamentalista que se espalha no mundo, coibindo ações e manifestações diversas que vão desde o sistema educacional ao simples exercício da cidadania. Explicamos:

Numa sociedade democrática, ou pelo menos a que levanta a bandeira da Democracia, não pode obrigar o cidadão a votar, sendo o voto um direito e não um dever. As antigas leis do Contrato Social, idealizadas por homens que diziam amar a liberdade, a igualdade e a fraternidade foi um grande passo no sentido de acabar com a “ditadura” monárquica para colocar a liberdade democrática. Basta ver a carnificina que se seguiu, não só matando os antigos donos do poder, mas os que ajudaram a pensar e a fazer a dita revolução para a liberdade, para percebermos que nada pode ser imposto nem cerceado ou delimitado. Estamos nos referindo aqui a Robespierre e sua mão de ferro que condenou não apenas os reis e nobres, mas Danton e todos os outros idealizadores iluministas e iluminados da época. De lá para cá a coisa só piorou no sentido da perda, porque o ideal se coloca de um lado e a prática do outro, e esta última é que fica e que faz valer a ação.

Além da questão do voto, segue-se o serviço militar que na nossa sociedade ainda é obrigatório, o que também deveria ser direito e incentivado o seu exercício, mas não imposto. Agora também é a vez da escolaridade formal, que também se tornou obrigatória, mas de um modelo só. Que todo indivíduo tenha direito a educação escolar é um lema democrático, mas que se possa escolher como se dará esta educação é um direito garantido em Constituição, hoje violado pela política e ideologia populista. Qualquer reflexão racional e histórica daria conta dessa impropriedade. A obrigatoriedade escolar não tem a intenção de deixar todos esclarecidos, alfabetizados ou conscientizados e sim de formatar as cabeças e as expressões para se garantir a manutenção do poder que idealizou tamanho absurdo, tamanho paradoxo na formação cultural de um país inteiro. O estado deve garantir o acesso a todos à escolaridade e não controlar ou cercear este acesso.

Em verdade, é o poder político e econômico que mais uma vez se impõe aos cidadãos livres e desavisados da nossa sociedade. Pergunta-se: como um cidadão é livre? Como e onde ele pode exercer a sua liberdade? Há os que dirão: você pode falar, escrever, use a Internet, faça um blog, e daí ladeira abaixo, como se todos pudessem ter acesso as mais altas tecnologias. Referimo-nos a Liberdade plena de pensamento e expressão, de imaginação e sentimentos, de criação e manifestação, da pluralidade, da diversidade. Falar por falar, escrever por escrever não acrescente nem muda nada. Quanto filme é produzido que não chega ao Brasil, só porque não passa pelo crivo do censor que determina o que deve ou não ser assistido, isto é, consumido pela nossa massa.. A desculpa de que não interessa o que se passa na Europa ou em outros continentes é furada, já que a maior parte dos filmes veiculados nas salas de cinema e pelos DVDs são americanos, com a velha recita – sexo, violência e besteirol. E o que temos nós a ver com esta sociedade tão diversa, tão esquisita, tão estranha à nossa?

Voltando a questão da liberdade e da Democracia e o controle disso tudo - carteiras de identidade e outros documentos substituídos por uma carteira única que conterá todos os dados do cidadão, tudo organizadamente computadorizado, como se esta tecnologia fosse, além de infalível, digna da total confiança de todos. Se perder o documento, perdeu tudo. E o acesso às informações individuais ficam facilitadas! Há sempre duas faces na mesma moeda e o que parece facilitar pode complicar; o que tem o lema de simples e democrático, pode esconder o complexo sistema de controle em massa.

O que mais se vê é a unificação de tudo para uma simplificação. Não seria este o grande paradoxo da nossa civilização? Uma sociedade mais que complexa, querendo funcionar e existir com sistemas únicos de tudo? Para um único controle? Não seria este o fim programado para este mundo? Onde existe apenas UM não há liberdade, não há diversidade, não será preciso Democracia – basta a Ditadura do UM. Nem mesmo a noção de liberdade existiria, já que para ter esta noção é preciso conhecer o seu contrário – a não liberdade. O contrário do um é o dois, da tese, a antítese. A síntese não é a unificação, nem mesmo a supressão de uma das partes. Não há simplificação possível neste processo e sim superação, ou melhor, um processo que leva a suprassumir, que carrega o um e o dois para afirmar o três, que novamente se coloca como um. Foi assim que nasceram todas as civilizações e as sociedades. Não vamos agora matar tudo levando o diverso, o plural a um único singular, ao um e este igualado a zero. Afirmemos a liberdade não tardiamente, mas agora - Libertas ab ovo et semper

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