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quinta-feira, 27 de julho de 2017

Religião: ter ou não ter?

Há pouco li o título de um livro do Dalai Lama, grande nome entre líderes religiosos -  a Ética é mais importante que a religião - e, a princípio, realmente fiquei  surpresa. Uma proposta dessas vindo a partir de  um líder que  guia um conjunto de pessoas que professam uma espécie de fé, um conjunto de ideias específicas sobre o mundo, a realidade, a vida em si mesma, é realmente curioso. Não imagino o que sentiram seus "fiéis" mas, com certeza, ele tocou milhões de pessoas diferentes.
Eu sempre defendi essa ideia e quando propus a um padre amigo meu , ele disse que era uma proposta perigosa. Na verdade, eu defendi e defendo o estado laico porque penso que, se formos éticos, a religião não tem função alguma na sociedade como instituição normativa. Aliás, ela nem deveria ser normativa; isso ficou há muito tempo atrás, num passado histórico.
A religião é uma espécie de estética, isto é, ela é da ordem do bom, do belo e do verdadeiro. Assim, cada indivíduo tem um sentimento a respeito desses temas, logo, cada um "veste" a religião que melhor considera ou que mais gosta. Tem que ter afinidade, tem que ressoar no seu interior. E acima de tudo, eu creio que religião tem que responder às questões mais profundas da alma humana, uma espécie de consolo ao mistério da Vida. O Direito com seus braços institucionais pode garantir a ordem na sociedade com a escritura e a vigilância das leis; a religião deve consolar, amparar, auxiliar.
Se observarmos bem o mundo, veremos que as instituições monoteístas não resolveram nenhum problema humano, ao contrário, incitaram e incitam conflitos e guerras devido a intolerância embutida na crença de uma só origem, uma só resposta, uma só possibilidade, um só deus. Vimos e vemos a intolerância de gênero, de raça, de cor baseada na ideias religiosas. Já se matou e morreu mais em nome de um deus que da descrença nele... sempre o excesso matou mais que a falta, ainda que seja o excesso de fé! Mesmo as religiões ditas politeístas, ou as que se escondem como apenas uma filosofia de vida, cerceiam o pensamento e o sentimento humano, pois também se unem às ideias intolerantes das maiores instituições do mundo,

incutindo e cultivando medos escatológicos, com profecias de fim de mundo e outras catástrofes. O Universo é vasto, infinito e diverso e ainda pensamos de uma forma bitolada e limitada. Se nos libertarmos de crenças limitantes, um  enorme campo de possibilidade se abre a nossa frente e, com certeza, nossa consciência se expandirá.
Assim, penso que este livro, embora seja pequeno, algumas respostas de uma entrevista ao Dalai Lama, possa abrir a mente das pessoas com a finalidade de se repensar nosso estar no mundo de uma forma mais justa, mais produtiva e mais tolerante - realmente pacífica.

terça-feira, 17 de março de 2015

QUEM TEM MEDO DE CRÍTICA?

A pergunta hoje é exatamente essa e creio que sem uma resposta rápida a contento. Mais urgente que no século passado, quando a crítica começou a tomar corpo e seguir tendências, a crítica hoje urge de desenvolvimento real. Não temos que perguntar maneiristicamente - quem tem medo de Virgínia Woolf - e sim, quem tem medo de Machado de Assis, grande literato e crítico do início do século XX.
A crítica tomou rumos interessantes hoje, no país, depois de uma longa ditadura que a perseguiu e dilacerou. Atualmente temos apenas duas versões: há a tendência da crítica que não critica e só elogia e a crítica raivosa no estilo Olavo de Carvalho que, quando fica sem argumentos, xinga, ofende, etc. Assim, ficamos excluídos do desenvolvimento do pensamento crítico, do desenvolvimento argumentativo e as falácias grassam pelas mídias, redes sociais, blogs, revistas e todo o meio de comunicação que se puder pensar e acessar.
A boa crítica se fundamenta na razão e não na emoção. Não se trata de gosto ou não gosto, mas de buscar fundamentos que expliquem e/ou justifiquem a proposta apresentada seja artística, política, jornalística ou da moda.
Em bom português dizemos: gosto não se discute, lamenta-se (quando muito!). Mas uma crítica não é questão de gosto, mas de fundamentação teórica para não dizer filosófica, de onde ela realmente deriva.
Interessante notar também que a filosofia de bar tem sido divulgada como a filosofia brasileira e cai-se novamente em outra dicotomia: ou é o meio acadêmico que publica suas ideias e as faz circular pomposamente pelas mídias, regulando isso e aquilo como se pudéssemos ter uma filosofia normativa, apontando o dedo aqui e ali, ou o sujeito sobe na mesa com um megafone e berra os nomes dos filósofos clássicos mais importantes da cultura ocidental e faz, não um samba em Berlim, que este já nos acostumamos a ouvir, mas um funk chinês na Tailândia!
E assim, a filosofia no Brasil tem se travestido de auto-ajuda, orientação para jovens perdidos sem formação alguma apesar de terem concluido 9 anos de estudo e, às vezes, até mais, coach para líderes em potencial (encubados), para empresários, para universitários, com direito a aparições na mídia global, junto a outros pseudo intelectuais que fizeram a vida como apresentadores de amenidades na TV.
Criticar é feio, aprendemos quando criança em casa, até mesmo desviando o olhar do diferente para não apreciarmos (corre o riso de adotarmos o diverso!). Na escola, dizem o mesmo e não nos ensinam como fazer, embora a crítica não desenvolvida e a falta de espaço para expressão dela gere o bullying inevitável. Se não sei conviver com a diferença, rechaço, destruo, expulso, simples assim. E diferente é tudo, pois não existe o igual, mesmo  numa tribo. A diversidade é nossa essência e aparência.
Criticar é pecado, dizem os religiosos, mostrando travas nos olhos e dedos em riste,  proclamando o dia, a hora e os integrantes do único tribunal aceitável para a humanidade. Mas os líderes desses caudilhos se imbuem muito mais de que uma leve crítica. Como não a desenvolvem, transmutam-na em intolerância e violência. Assim, guerras santas se espalham pelo país, se não em vias de fato ainda, pelo menos nos congressos e tribunais de inquisição do Supremo e outros, estimulando e destilando raiva, ódio pelo outro.
Criticar é negativo, apregoam os positivistas (não de Comte, mas dos seguidores do pensamento positivo), mestres de autoajuda, pseudo gurus e espiritualistas, pensadores da Nova Era (que até agora não mostrou nada de novo), banindo até a palavra do vocabulário comum das pessoas e incentivando uma aceitação de tudo unilateral e univocamente, que se expressa somente no que é menos (o vocábulo mais provavelmente foi banido junto com o termo crítica).
Enfim, quem tem medo de crítica? Os poderosos, os que estão no controle das massas, os que tiram proveito disso? Não. Todos, já que o grande intelectual, pensador e crítico Foucault evidenciou em seus trabalhos - o poder se estende pelas microvias economicamente e controla o incontrolável, sem esforço e sem despesas para o Estado. Está aí, no "meio da encruzilhada e do redemoinho."
Assim, temos um quadro do medo que cresce virando terror no país. E como filhos e descendentes de lusitanos que somos, conseguimos piorar as coisas e exageramos um pouco mais, destruindo toda e possível Ética e a até a boa educação - só ver em estádios e  videozinhos postados a baixaria com que se expressa a nata "intelectualóide" da classe média, desrespeitando o princípio básico da civilidade e da democracia.
Eu, que não tenho medo nem me amarro em jogos de consessão, mantenho a crítica afiada, embasada na boa Filosofia, especialmente na Retórica, na Poética e na Ética ao longo desses 2000 anos.